Boas-Vindas

Sinta-se a vontade para chorar, rir e criticar.

Sinta-se a vontade para amar, gostar ou odiar.

Sinta-se a vontade para sair se quiser.

Sinta-se a vontade para voltar quando puder.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

LUZ



Tudo estava tão escuro. Não havia corpos, havia sombras. Não havia lábios, havia beijos. Não havia mãos, havia toques. Estávamos todos perdidos na lisérgica condição de almas vagando através de outras almas. Nada se explicava, mas tudo se entendia. Era carnal e translúcido ao mesmo tempo. Possivelmente as sensações eram mistas. A sincronia permeada pela fumaça que adentrava o redor montanhoso desmembrava no centro dos acontecimentos um estrondoso desejo pagão que parecia um fenômeno de fé insana e tangível. Eu acredito ter sido mais um. Acredito que um fantasma do passado me forçava a extrapolar os meus desejos íntimos, numa explosão pública de descontrole. A escuridão era a veste dos corpos que por ali vagavam. A penumbra enganava os escolhidos com um certo erotismo sagrado sem hiperexposição da sexualidade que não condenava ou oprimia as vontades que se desenvolveram com o passar do tempo e da mudança, imagens essas, absorvidas pelos espelhos da alma. Olhos. Eles não eram aliados ou inimigos, eram apenas inúteis e perdidos. Temerosos e inocentes. Demoníacos e santificados. Nos cantos não havia sexualidade impedida ou condenada. Homens, mulheres, homens, homens, mulheres, mulheres, fantasmas, sombras. Os beijos ardiam rompendo o silêncio do espanto que pincelava a tela majestosa da obra artística, ou dependendo da concepção, distorção de uma falsa realidade.
Vi o amado pelo coração, sendo desejado por outros olhos. Eu via. Eu senti o amado pelo coração aproximar-se em um abraço e desprender um beijo direcionado dependente do meu que tanto ansiava aquele momento, onde ninguém pertencia a nada e a ninguém. Eu sentia.
De repente, um brilho ofuscante rompeu a película da escuridão que envolveu os mortificados mortais durante anos. Todos viam. Todos sentiam. Começamos a correr em direção a aquela reticência insana inexplicável. Ao chegarmos no ponto procurado por horas, vimos todos uma cascata luminosa que nos atraía para o experimentalismo curioso de nossos arbítrios. Ao tentarmos, percebemos que da cascata saía o inimaginável, para onde os corpos se lançavam livres de qualquer pudor ou fobia e depois voavam iluminados pela pasmaceira da escuridão que não mais chamava atenção. E por incrível que pareça, por fantástico que seja, acredite ou não. Era cascata e cachoeira e rio. Mas acima de todas a normalidades anormais o que saía dali, não era água. Era luz.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Já Passou

Nossa, já passou tanta coisa nesses últimos dias que parece que estou vendo a minha vida correr diante dos meus olhos e aquela vontade de gritar pra aliviar a adrenalina simplesmente me deixa mudo e inconstante. Lembro-me do dia que vi o boato na internet de que a Kylie viria. Chorei, sorri, arrepiei, desesperei, pirei! Uma sensação louca de descontrole marcou profundamente aquele momento, e depois que eu peguei o ingresso na mão e finalmente conclui que eu iria ao show, fiquei ansioso demais. Não sei nem quantos cigarros eu fumei durante esse tempo, nem a quantidade de comida que comi, nem a quantidade de suor que derrubei em exatos 54 dias de espera. Finalmente chega o grande dia de ir ao show. Fui até São Paulo, sozinho, sonolento – afinal acordei bem cedinho e peguei o primeiro ônibus – e apenas fui. Dormi o caminho todo e acordei na entrada da grande metrópole. Eu pensava “ Que bela cidade! Que lugar maravilhoso!” e entre uma conversa e outra com pessoas que também estavam no ônibus, eu lamentava “Por que uma cidade tão bela, pode ser ao mesmo tempo tão mal cuidada em alguns lugares? Por que antes das pessoas aproveitarem todas as oportunidades que essa cidade oferece, algumas roubam, matam, destroem?” Mareado de “porques” coloquei-me na posição de indignado-feliz. Uma mistura suicida de sensações que me jogava abruptamente nas geleiras profundas do inferno e me lançava ao calor acolhedor do céu. Por um minuto esqueci-me que eu estava exatamente na temperatura amena do solo firme, decorado hora por mansões e belas casas e hora por barracos e favelas inteiras. Vislumbrava de cinco em cinco minutos um assalto, um tiro, uma redenção forçada, mas nunca um sorriso, tranqüilidade, paz.

Preview do Show! Parecia Mentira...

Ao mesmo tempo eu imaginava como seria o show, as pessoas, como seria o hotel, o paladar a solidão da cidade grande. Desci no terminal rodoviário finalmente, e peguei o metrô. Enquanto eu estava abraçado com a minha mochila, eu via pessoas caminhando tranqüilamente – umas até empurrando com o pé as suas mochilas – enquanto eu, estava acoado, com medo. Depois disso, percebi que o costume faz a rotina. Era comum para aquelas pessoas agirem assim mas para mim era assustador. Será que ninguém tinha medo de perder suas coisas, de esquecer, de ser roubado? Pânico, muito pânico e suor frio. Depois do metrô e de muitas perguntas cheguei no hotel. Era o IBIS Hotel de Interlagos, um lugar muito bonito com o Shopping de Interlagos bem na frente – bastava atravessar a rua – e muita gente nos pontos de ônibus e na rua caminhando feito formigas. 

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Da janela do hotel eu observava atento a ebulição de pessoas atravessando aquelas ruas. Crianças, mães, homens de todos as maneiras e estilos. Eu me encantava com a quantidade de pessoas e ao mesmo tempo contemplava a solidão daquele quarto vazio, daquela cama vazia, do ármario com as poucas roupas que eu levei na mala, e o meu coração, cheio de esperanças processando informações para depois repartí-las com amigos. Fiquei por uma hora quase observando o movimento até que resolvi tomar um banho e ir ao shopping comprar alguma coisa e comer alguma junkie food  para reabastecer as energias. Primeira parada: Burger King, depois Livraria Saraiva – onde comprei o cd “Perfect Symmetry” do Keane, que foi a minha trilha sonora de viagem – e por último o cinema onde assisti “Última Parada 174”. Não sei explicar mas eu precisava ver esse filme. Eu não sabia do que se tratava porque pouco tempo tenho para a T.V. . A única coisa que eu sabia sobre o filme era que tratava da história do seqüestrador de um ônibus no Rio de Janeiro. Entrei para a sessão da 12:45. Foi até a hoje a maior sala de cinema que eu já vi. E estava maior ainda porque eu estava sozinho vendo o filme. Ninguém além de mim e o meu entusiasmo estava presente naquela sala, diante daquela tela. Fiquei impressionado com o descaso do público, que em outra sala estava em peso assistindo High School Musical 3. Eu particularmente não gosto de HSM nem dos enlatados Disney. Acho que a Disney é desenho animado, longas metragens animados e mais nada. Hannah Montana, Demi Lovato, Vanessa Hudgens, Selena Gomez e tantas etecétaras são bonecos humanos manipulados por um apelo POP ultrapassado e desinteressante - abro uma exceção para Hilary Duff que ultimamente reconstruiu sua imagem e está produzindo músicas boas pra dançar – enfim, não gosto e não sou favorável ao fake fashion. Acho bem mais interessante um filme cujo cenário de fundo são as favelas, a pobreza, a indução ao crime, do que um colégio de engomadinhos que cantam e dançam quando cai um garfo ou um livro no chão. O filme é realmente belo, com tudo em seu ápice. Não há momentos de estafa ou saco cheio. As cenas na medida certa, as atuações chocantes e verdadeiras. Acredito eu, que estava vendo um clássico do nosso cinema. Parabéns ao cinema nacional e a sua estética realista e expressiva.

Trailer do Filme

Depois do cineminha, voltei para o hotel e dormi um pouco. Acordei, pedi o jantar, tomei outro banho e jantei. Desci, peguei um táxi e fui para o Credicard Hall, ficar na fila. Não era nem 20:00 e a fila já estava imensa, saindo para fora do local. Eu estava a alguns metros e a algumas horas de realizar um grande sonho. As 20:30 abriram a portaria e liberaram a entrada. Alguns acomodaram-se na frente do palco ( como era de imaginar ) e outros como eu ficaram caçando um lugar e uma companhia. Eu estava tão atônito que logo ao entrar no Credicard Hall eu comprei o Tourbook e uma camiseta com a foto da Kylie bem grande. Fiquei em pé, segurando uma sacola imensa e desviando das pessoas que estavam sentadas pra garantir lugar e visibilidade.  As 21:00 entrou um DJ que tocou alguns clássicos oitentistas, um pouco de Madonna e um pouco de Kylie. As 22:00 ele começou a ser vaiado. Ninguém queria mais DJ. Nós queriamos a KYLIE! Mesmo assim, o cara arrebentou na pickup até as 22:30, quando de repente, as luzes se apagaram e um holofote acendeu-se sobre as cortinas roxas que cobriam o palco. Quando as cortinas se abriram, a primeira projeção veio a tona e o público delirou. Aí sim, era ela, linda, baixinha, iluminada, morta de calor e impressionada com a energia de seus súditos. Durante quase duas horas nós pulamos, cantamos juntos, nos emocionamos… ficou tudo à flor da pele, no ápice. É impressionante ver como as emoções se misturam. Alguns reclamavam do som, outros como eu, nem se importavam e curtiam o momento, mesmo com o calor insuportável e a acústica deprimente do Credicard Hall. Ao final do espetáculo ela cantou duas músicas que pedimos e se despediu emocionada do público.

Kylie Goodbye

Saímos do Credicard Hall e fomos pra rua esperar um táxi ( Isso mesmo, no plural porque fiz amigos! Dois incríveis amigos e fãs loucos da Kylie igual a mim. Bruno e JP – esse último que sumiu depois do show – grandes companheiros ) mas não chegava táxi nenhum e o único que se ofereceu pra nos levar cobrava R$ 75,00 um percurso de 5 minutos! Fiquei choramingando o preço e tentanto abaixar, mas nada acontecia. Até que um senhor escutou e se ofereceu pra nos levar por R$ 10,00. Mesmo assim, o Bruno foi com o careiro que baixou o preço devido a proposta que outro taxista fez. Despedi-me do Bruno, ele tomou o rumo dele e eu o meu, já deixando aquela saudade boa pra matar depois. Cheguei exausto no hotel, molhado de suor. Tomei outro banho coloquei uma roupa leve e dormi. Sonhei gostosamente com o show e com a realização desse sonho magnífico. Acordei bem de manhãzinha com o rosto inchado de choro, de algeria de calor e de sono também. Tomei café e comecei a fazer o caminho de volta pra casa: um táxi até a estação de metrô, um  metrô até a estação rodoviária e um ônibus de volta pra Lindóia. Durante o percurso, conheci pessoas muito legais e durante a viagem também. Tive sorte de cruzar com pessoas boas e prestativas que ao invés de me classificarem por qualquer coisa, mostraram-se disponíveis a me ajudar. Afinal eu estava em uma cidade gigante onde eu não conhecia ninguém. Não vi  - graças a Deus - nenhum assalto, tiro ou coisa parecida, apenas uma população amigável que está cercada por alguns que gostam de ver sofrimento e discórdia. Amei São Paulo! E o show? Nunca mais vou me esquecer das lágrimas, do sorriso – permanente – de Kylie, do calor humano, do calor do local  - sim, porque estava muito quente – . Eu fecho os olhos e visualizo tudo novamente, é como se eu tivesse gravado um filme na minha memória. Agora temos a Madonna chegando em menos de vinte dias e mais uma viagem inesquecível que será maravilhosa – espero –, igual a essa. lovetoyouallblackyz0

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Entre Cigarros e Sonhos...

É realmente difícil imaginar que enquanto eu estou aqui, tragando lentamente os meus cigarros existem pessoas capazes de destruir alguns sonhos humanos, como por exemplo, o de simplesmente viver. Ultimamente, todos ficamos chocados por qualquer fato que seja tratado de forma massificada pela imprensa, e discutido diariamente em almoços, jantas, reuniões informais e formais, bate papo e até discussões. O que eu me pergunto é o seguinte: até que ponto somos capazes de nos preocupar com próximo e em até que ponto ajudamos?
A bola da vez é Lindemberg, o assassino passivo de Eloá. Sim, passivo porque, mesmo com a hipótese do tiro ter sido disparado pela polícia e não por ele, a passividade torna-se uma classificação para a atitude bisonha de seqüestrar a ex-namorada por CEM HORAS na esperança de retomar um relacionamento que acabou por desgasto. Levo comigo a lição de que quando tudo acaba, realmente acaba, o fim faz torna-se parte do passado a partir do momento em que notamos que terminou. Porém existem pessoas que não entendem que o fim é o fim e acham que o fim é a chance de refazer, reconstruir. Não existem paredes remendadas, nem estradas. Vivemos num constante jornada por uma estrada que vai desmoronando atrás dos passos que nos fazem seguir em frente, assim completa-se a lógica: como pisar macio em uma estrada esburacada ou até as vezes inexistente? Acendendo outro cigarro, gostaria de ressaltar o fato do qual fala-se a todo momento: o final trágico e absurdo do seqüestro em Santo André. Vou aproveitar a banalização do caso (que pelo menos no programa da Sônia Abrão talvez descubramos até a cor da calcinha que a menina estava usando quando foi assassinada) e dizer que não estou profundamente chocado com o fato. Fico triste, chateado e pensando que essa garota poderia ter ido bem mais além com a sua vida, se talvez não adquirisse um Lindemberg para suas noites de bate papo com as amigas, falando de namorados, primeira vez e etc. Tenho por princípio o fato de que as vezes, ou quase sempre, é necessária a palavrinha NÃO e que pode evitar palavras maiores ou iguais como DOR PERDA SAUDADE MORTE DESESPERO. E pensando nisso, imagino também a força da palavra SIM e seus sinônimos (aceito, concordo e os vulgos "vamo lá" e "demorou"), o que um ato permissivo é capaz de fazer. Quem podemos culpar pela morte de Eloá? Ela mesma, Lindemberg ou a família que há 3 anos permitiu o início desse namoro que se transformou o hit cult do momento? Existem explicações para tudo, menos para as conseqüencias, todos, inclusive eu, dizem que isso poderia ter sido evitado, mas, como evita-se o destino? A nossas únicas certezas na vida é de que vamos morrer e de que temos uma missão. Penso em qual seria a minha missão e o porque de eu estar na terra entre os homens nessa vida. Penso que talvez o que houve em santo André, foi um cumprimento de missões. A missão de Eloá talvez era a de ser uma fúnebre celebridade e a de Lindemberg um pobre garoto perturbado, mas não é assim que enxergamos as coisas. Vemo-as como a vítima pobre coitada com o cérebro em miúdos e ele como o assassino inconseqüente do cérebro miúdo. Se formos analisar bem, realmente, Eloá é uma vítima, mas não de Lindemberg e sim de sua própria incoseqüencia e desejo de vida adulta, que muitas crianças como ela têm hoje em dia. Porém, eu, Fernando como ser humano, saio agora do lógico e parto para o humano: Lindemberg merece o sofrimento, eterno, cruel e Eloá a paz. Paz essa que faltou, em cada lágrima derrubada pedindo por socorro. Por isso finalizo apagando o meu cigarro, porque logo após acenderei outro e quanto aos sonhos, que consequentemente frequentam meu imaginário.