Nossa, já passou tanta coisa nesses últimos dias que parece que estou vendo a minha vida correr diante dos meus olhos e aquela vontade de gritar pra aliviar a adrenalina simplesmente me deixa mudo e inconstante. Lembro-me do dia que vi o boato na internet de que a Kylie viria. Chorei, sorri, arrepiei, desesperei, pirei! Uma sensação louca de descontrole marcou profundamente aquele momento, e depois que eu peguei o ingresso na mão e finalmente conclui que eu iria ao show, fiquei ansioso demais. Não sei nem quantos cigarros eu fumei durante esse tempo, nem a quantidade de comida que comi, nem a quantidade de suor que derrubei em exatos 54 dias de espera. Finalmente chega o grande dia de ir ao show. Fui até São Paulo, sozinho, sonolento – afinal acordei bem cedinho e peguei o primeiro ônibus – e apenas fui. Dormi o caminho todo e acordei na entrada da grande metrópole. Eu pensava “ Que bela cidade! Que lugar maravilhoso!” e entre uma conversa e outra com pessoas que também estavam no ônibus, eu lamentava “Por que uma cidade tão bela, pode ser ao mesmo tempo tão mal cuidada em alguns lugares? Por que antes das pessoas aproveitarem todas as oportunidades que essa cidade oferece, algumas roubam, matam, destroem?” Mareado de “porques” coloquei-me na posição de indignado-feliz. Uma mistura suicida de sensações que me jogava abruptamente nas geleiras profundas do inferno e me lançava ao calor acolhedor do céu. Por um minuto esqueci-me que eu estava exatamente na temperatura amena do solo firme, decorado hora por mansões e belas casas e hora por barracos e favelas inteiras. Vislumbrava de cinco em cinco minutos um assalto, um tiro, uma redenção forçada, mas nunca um sorriso, tranqüilidade, paz.
Preview do Show! Parecia Mentira...
Ao mesmo tempo eu imaginava como seria o show, as pessoas, como seria o hotel, o paladar a solidão da cidade grande. Desci no terminal rodoviário finalmente, e peguei o metrô. Enquanto eu estava abraçado com a minha mochila, eu via pessoas caminhando tranqüilamente – umas até empurrando com o pé as suas mochilas – enquanto eu, estava acoado, com medo. Depois disso, percebi que o costume faz a rotina. Era comum para aquelas pessoas agirem assim mas para mim era assustador. Será que ninguém tinha medo de perder suas coisas, de esquecer, de ser roubado? Pânico, muito pânico e suor frio. Depois do metrô e de muitas perguntas cheguei no hotel. Era o IBIS Hotel de Interlagos, um lugar muito bonito com o Shopping de Interlagos bem na frente – bastava atravessar a rua – e muita gente nos pontos de ônibus e na rua caminhando feito formigas.
Da janela do hotel eu observava atento a ebulição de pessoas atravessando aquelas ruas. Crianças, mães, homens de todos as maneiras e estilos. Eu me encantava com a quantidade de pessoas e ao mesmo tempo contemplava a solidão daquele quarto vazio, daquela cama vazia, do ármario com as poucas roupas que eu levei na mala, e o meu coração, cheio de esperanças processando informações para depois repartí-las com amigos. Fiquei por uma hora quase observando o movimento até que resolvi tomar um banho e ir ao shopping comprar alguma coisa e comer alguma junkie food para reabastecer as energias. Primeira parada: Burger King, depois Livraria Saraiva – onde comprei o cd “Perfect Symmetry” do Keane, que foi a minha trilha sonora de viagem – e por último o cinema onde assisti “Última Parada 174”. Não sei explicar mas eu precisava ver esse filme. Eu não sabia do que se tratava porque pouco tempo tenho para a T.V. . A única coisa que eu sabia sobre o filme era que tratava da história do seqüestrador de um ônibus no Rio de Janeiro. Entrei para a sessão da 12:45. Foi até a hoje a maior sala de cinema que eu já vi. E estava maior ainda porque eu estava sozinho vendo o filme. Ninguém além de mim e o meu entusiasmo estava presente naquela sala, diante daquela tela. Fiquei impressionado com o descaso do público, que em outra sala estava em peso assistindo High School Musical 3. Eu particularmente não gosto de HSM nem dos enlatados Disney. Acho que a Disney é desenho animado, longas metragens animados e mais nada. Hannah Montana, Demi Lovato, Vanessa Hudgens, Selena Gomez e tantas etecétaras são bonecos humanos manipulados por um apelo POP ultrapassado e desinteressante - abro uma exceção para Hilary Duff que ultimamente reconstruiu sua imagem e está produzindo músicas boas pra dançar – enfim, não gosto e não sou favorável ao fake fashion. Acho bem mais interessante um filme cujo cenário de fundo são as favelas, a pobreza, a indução ao crime, do que um colégio de engomadinhos que cantam e dançam quando cai um garfo ou um livro no chão. O filme é realmente belo, com tudo em seu ápice. Não há momentos de estafa ou saco cheio. As cenas na medida certa, as atuações chocantes e verdadeiras. Acredito eu, que estava vendo um clássico do nosso cinema. Parabéns ao cinema nacional e a sua estética realista e expressiva.
Depois do cineminha, voltei para o hotel e dormi um pouco. Acordei, pedi o jantar, tomei outro banho e jantei. Desci, peguei um táxi e fui para o Credicard Hall, ficar na fila. Não era nem 20:00 e a fila já estava imensa, saindo para fora do local. Eu estava a alguns metros e a algumas horas de realizar um grande sonho. As 20:30 abriram a portaria e liberaram a entrada. Alguns acomodaram-se na frente do palco ( como era de imaginar ) e outros como eu ficaram caçando um lugar e uma companhia. Eu estava tão atônito que logo ao entrar no Credicard Hall eu comprei o Tourbook e uma camiseta com a foto da Kylie bem grande. Fiquei em pé, segurando uma sacola imensa e desviando das pessoas que estavam sentadas pra garantir lugar e visibilidade. As 21:00 entrou um DJ que tocou alguns clássicos oitentistas, um pouco de Madonna e um pouco de Kylie. As 22:00 ele começou a ser vaiado. Ninguém queria mais DJ. Nós queriamos a KYLIE! Mesmo assim, o cara arrebentou na pickup até as 22:30, quando de repente, as luzes se apagaram e um holofote acendeu-se sobre as cortinas roxas que cobriam o palco. Quando as cortinas se abriram, a primeira projeção veio a tona e o público delirou. Aí sim, era ela, linda, baixinha, iluminada, morta de calor e impressionada com a energia de seus súditos. Durante quase duas horas nós pulamos, cantamos juntos, nos emocionamos… ficou tudo à flor da pele, no ápice. É impressionante ver como as emoções se misturam. Alguns reclamavam do som, outros como eu, nem se importavam e curtiam o momento, mesmo com o calor insuportável e a acústica deprimente do Credicard Hall. Ao final do espetáculo ela cantou duas músicas que pedimos e se despediu emocionada do público.
Saímos do Credicard Hall e fomos pra rua esperar um táxi ( Isso mesmo, no plural porque fiz amigos! Dois incríveis amigos e fãs loucos da Kylie igual a mim. Bruno e JP – esse último que sumiu depois do show – grandes companheiros ) mas não chegava táxi nenhum e o único que se ofereceu pra nos levar cobrava R$ 75,00 um percurso de 5 minutos! Fiquei choramingando o preço e tentanto abaixar, mas nada acontecia. Até que um senhor escutou e se ofereceu pra nos levar por R$ 10,00. Mesmo assim, o Bruno foi com o careiro que baixou o preço devido a proposta que outro taxista fez. Despedi-me do Bruno, ele tomou o rumo dele e eu o meu, já deixando aquela saudade boa pra matar depois. Cheguei exausto no hotel, molhado de suor. Tomei outro banho coloquei uma roupa leve e dormi. Sonhei gostosamente com o show e com a realização desse sonho magnífico. Acordei bem de manhãzinha com o rosto inchado de choro, de algeria de calor e de sono também. Tomei café e comecei a fazer o caminho de volta pra casa: um táxi até a estação de metrô, um metrô até a estação rodoviária e um ônibus de volta pra Lindóia. Durante o percurso, conheci pessoas muito legais e durante a viagem também. Tive sorte de cruzar com pessoas boas e prestativas que ao invés de me classificarem por qualquer coisa, mostraram-se disponíveis a me ajudar. Afinal eu estava em uma cidade gigante onde eu não conhecia ninguém. Não vi - graças a Deus - nenhum assalto, tiro ou coisa parecida, apenas uma população amigável que está cercada por alguns que gostam de ver sofrimento e discórdia. Amei São Paulo! E o show? Nunca mais vou me esquecer das lágrimas, do sorriso – permanente – de Kylie, do calor humano, do calor do local - sim, porque estava muito quente – . Eu fecho os olhos e visualizo tudo novamente, é como se eu tivesse gravado um filme na minha memória. Agora temos a Madonna chegando em menos de vinte dias e mais uma viagem inesquecível que será maravilhosa – espero –, igual a essa.